15 abril 2010

Comportamentos e atitudes que levam ao abandono escolar e ao insucesso

O fenómeno do abandono escolar tem merecido especial atenção nos últimos tempos. Sendo um acontecimento que não aparece por acaso, ele acarreta consequências nefastas para a sociedade em geral, pelo que se torna urgente identificar as causas da sua persistência. As elevadas taxas de abandono escolar que actualmente ainda se verificam, para além das consequências imediatas, têm consequências que só terão efeito no futuro.
O abandono escolar prejudica a produtividade de um país e representa um desperdício lamentável de vidas jovens. O abandono escolar não é só um problema social e educacional, ele é simultaneamente um problema económico.
A caracterização dos jovens que abandonam a escola é imprescindível para se identificar, atempadamente, o aluno em risco de abandono. Identificar o “aluno em risco de abandono” permite que se possa agir sobre ele a fim de evitar a situação real de abandono e conseguir que ele “volte” à escola.
Não existe uma causa única do abandono escolar. Este só recentemente começou a ser objecto de estudo, no entanto já existem várias tentativas de interpretação do fenómeno. São diversos os autores que, na esperança de encontrar uma solução para o problema, o analisaram tentando indicar as suas causas.
Segundo Boudon, a decisão de se continuar ou não no sistema de ensino depende de uma avaliação antecipada, baseada em cálculos que os jovens e as suas famílias fazem em termos de custos, riscos e vantagens. Estes cálculos dependem directamente da situação escolar do jovem e da forma como se avalia o interesse do mesmo em continuar ou não no sistema de ensino, bem como dos riscos que se terá de assumir no futuro. Esta decisão é, assim, fortemente marcada pela posição social da família.
A família exerce, assim, uma grande influência na decisão dos seus educandos em prosseguirem ou não os estudos. As precárias condições sócio-económicas de muitas famílias conduzem muitos dos nossos jovens a entrarem prematuramente no mercado de trabalho.
Segundo o modelo teórico de Ferrão (1995) as várias causas do abandono escolar tem três focos principais: Escola, Família e Mercado de Trabalho: para este autor numa das três entidades reside a explicação da maioria das situações reais e potenciais deste fenómeno. Com base nos estudos efectuados pelos autores supracitados, pode-se afirmar que existem factores de ordem social, cultural e económica que condicionam o sucesso escolar e, consequentemente, o abandono precoce do sistema de ensino. Realizando um cruzamento entre os vários estudos passa-se a enumerar os comportamentos/atitudes conducentes ao abandono escolar:
-->Desmotivação dos alunos - o ensino que a escola actual dispensa é ainda muito centrado em conteúdos, enquanto deveria se mais no saber-fazer, levando muitos alunos a revelarem um grande desinteresse pelas matérias leccionadas e falta de empenho na resolução das tarefas propostas pelos professores;
-->Desestruturação das famílias - famílias monoparentais, muitas desfavorecidas nos planos cultural e económico. A pressão familiar face às dificuldades económicas e perante uma sociedade consumista faz com que muitos jovens se lancem rapidamente no mercado de trabalho;
-->Problemas pessoais - estes problemas podem muitas vezes estar ligados directamente à falta de apoio dos pais ou à inexistência dos mesmos, à influência de más companhias que podem conduzir os jovens por caminhos ilícitos, como a droga e a indisciplina, por vezes aliada à revolta. A análise seguinte refere-se à opinião de professores acerca das possíveis causas do abandono escolar e as razões apontadas estão intimamente relacionadas com o sistema de ensino:
-->A desmotivação;
-->As dificuldades de aprendizagem;
-->Não gostar da escola;
-->O insucesso escolar.
A escola é assim responsável por muitos casos de abandono escolar, pois não consegue manter os jovens inseridos no sistema de ensino. A escola não consegue igualmente, motivar os alunos para os estudos, pois não consegue apreender as necessidades individuais de um aluno. A escola tem tendência para excluir os alunos que não se adaptam ao seu sistema uniforme e monolítico. No sistema de ensino existem desigualdades que a escola não consegue combater, sendo muitas delas as responsáveis pelo mau sucesso e, consequentemente, pelo afastamento do jovem do mundo escolar.
Efectivamente, o insucesso escolar contribui para que o jovem se sinta mal no ambiente escolar, ficando desmotivado e desgostoso com a escola, acabando por reprovar. Esta situação pode provocar a ruptura do jovem com a escola, pois o facto de ter de repetir o ano como forma de castigo, leva o aluno a afastar-se de quem o rotula com sentido perjurativo. Se a reprovação já era difícil, sendo marcada de “más notas” e “repreensão”, mais difícil ficará após lhe ser passado um atestado oficial de insucesso.
A motivação de um jovem na escola, que tem dificuldades de aprendizagem e de integração, diminui quando ele experimenta uma situação de reprovação. A própria auto-estima do jovem é afectada e isso pode ter consequências nefastas quer a nível do percurso escolar, quer a nível da vivência em sociedade.
O absentismo, o desinteresse pelas matérias leccionadas, o mau comportamento que não possibilita estar atento à aula, o pouco tempo dedicado aos estudos são algumas das razões que podem dar origem ao insucesso e, consequentemente, ao abandono escolar. A relação que o jovem estabelece com o professor, ou professores, tem muita influência no modo como os jovens encaram a escola. O facto de se gostar, ou não, da escola também vai condicionar o abandono da mesma. O gosto pela escola passa, muitas vezes, pela relação professor/aluno, embora não seja só nesta relação que se baseia o gosto pela escola e pelos estudos, mas pode-se dizer que esta relação é a base de tudo o que se passa na escola e que pode estar, portanto, na origem do abandono escolar.
Ainda envolvendo a escola temos que ter em conta a distância que o jovem tem de percorrer para chegar a ela. Quando a distância é grande, o jovem tem dificuldades acrescidas, pois o facto de estar longe de casa todo o dia e o tempo que gasta nos transportes são algumas particularidades que afectam quem não vive ao pé da escola. Deste modo fica, imperativamente, afectado o tempo que o jovem pode dedicar aos estudos, tendo implicações na sua vida estudantil, mas também retira tempo de lazer, traduzindo-se por um factor negativo, que pode conduzir ao abandono escolar. Para muitos dos alunos as condicionantes económicas parecem marcar fortemente a decisão de abandonar o sistema de ensino e são muitos os jovens que o fazem, sobretudo porque não t~em condições que permitam suportar as despesas escolares.
Neste campo, as principais razões apontadas por muitos destes alunos são:
-->Dificuldades económicas;
-->O desejo de ganhar dinheiro;
-->O desejo de independência, nomeadamente, autonomia financeira.
As características económicas das famílias condicionam a frequência escolar dos filhos, assim como as actividades desenvolvidas pelos pais.
A componente económica pode ter intervenção directa no prosseguimento dos estudos, uma vez que existem, apesar do ensino ser por lei gratuito, despesas escolares que os pais não podem evitar, nem suportar. Essas “pequenas” despesas podem ser incomportáveis para um grande número de famílias que concentram, maioritariamente, as suas actividades no sector industrial. Os empregos neste sector não permitem, na sua maioria, auferir um rendimento muito elevado, pelo que torna difícil corresponder às exigências económicas impostas pela escola.
Em relação ao meio familiar, as principais razões apontadas pela maioria destes alunos são:
-->Falta de apoio familiar - a falta de apoio extra e a ocorrência, por vezes, de conflitos familiares são factores que contribuem para a dificuldade de aprendizagem, uma vez que podem originar no adolescente problemas de ordem afectiva e, até mesmo, dificuldades de integração social no meio que o rodeia);
-->A desvalorização dos estudos. De facto é inquestionável a influência que as características do meio familiar tem sobre os modos de vida dos jovens e sobre as decisões que estes tomam. A escolaridade dos progenitores está intimamente relacionada com a escolaridade dos filhos, havendo uma relação positiva entre a da mãe e a dos filhos.
Muitos jovens cujos progenitores desenvolvem uma actividade por conta própria são levados a “ajudar” os pais nas suas actividades principais, ou nos conhecidos “biscates”, sobretudo de fim-de-semana.
A desvalorização que os progenitores demonstram pelos estudos também tem alguns efeitos sobre o jovem. Numa casa onde não se valoriza a formação escolar dificilmente o jovem se sentirá motivado para prosseguir os estudos. Se os pais pressionam o jovem para que este inicie uma profissão, este tenderá a responder positivamente à pressão.
Não é possível esquecer que a pressão que os pais exercem sobre o jovem para que este entre no mercado do trabalho tem origem exactamente no mercado de trabalho, pois este “luta” em duas frentes: pressiona o jovem e pressiona os pais. Ao jovem “mostra-lhe” as vantagens imediatas da inserção na vida activa (ganhar dinheiro, ter autonomia, ter um emprego) e “esconde-lhe” as desvantagens imediatas, ou seja que só se farão sentir num futuro “longínquo”. Aos pais “convence-os” de que um investimento a curto prazo nos filhos representa maior lucro, do que um investimento a longo prazo, pois os projectos de vida a longo prazo não têm sucesso neste tipo de famílias.
Ao empregar mão-de-obra desqualificada, em termos de formação escolar e profissional, o mercado de trabalho envolvente da área de residência é assim um óptimo chamariz para quem corresponde a tais características. Se o mercado de trabalho não recebesse jovens com instrução baixa, eles teriam que manter-se na escola, já que não tinham outro tipo de actividade para desenvolver.
As razões apontadas como geradoras do insucesso escolar e, consequentemente, do abandono precoce do sistema de ensino são inúmeras. Todavia, pode-se concluir que, de todas elas, a desmotivação é a mais importante.
A desmotivação aliada a um enorme desinteresse por parte dos alunos conduz, inevitavelmente, a uma inerente falta de estudo, falta de empenho na resolução das tarefas propostas e a dificuldades de concentração na sala de aula.
Outro problema é a falta de conhecimentos que deveriam ter sido adquiridos em anos transactos, origina, por vezes, um atraso dos alunos, conduzindo-os, na maioria das vezes, ao insucesso escolar. Outro problema é a deficiente utilização de estratégias de ensino-aprendizagem por parte de alguns professores, que se limitam a debitar conteúdos em detrimento do saber-fazer, bem como as suas atitudes levam ao aparecimento de dificuldades em termos de aprendizagem nos alunos.
Esta situação, aliada, na maioria das vezes, a turmas com um número elevado de alunos, contribui para uma crescente desmotivação dos jovens. Assim, se os alunos se sentirem 'agarrados' à escola, provavelmente sentir-se-ão mais motivados com uma maior auto-estima e mais predispostos a prosseguirem os estudos.
A procura de soluções/exequibilidade

A identificação anterior dos problemas que contribuem para a desmotivação dos nossos jovens leva-me a concluir que é importante uma educação orientada para o saber-fazer, de modo a qualificá-los para a sua futura vida laboral. A orientação escolar dos nossos jovens é importante e, para que tal aconteça, o papel dos pais, professores e psicólogos é crucial nas escolhas do percurso escolar e nas opções a seguir pelos alunos no final do ensino básico.
A qualificação dos adolescentes é importante para eles como pessoas e para a sua dignidade, mas reflecte-se de igual importância para o desenvolvimento de toda uma região e até mesmo do país.
Um aspecto muito importante na prevenção do abandono escolar é a criação de condições físicas nas escolas, tais como laboratórios, ginásios, bibliotecas e todo um conjunto de condições que são fundamentais para o sucesso efectivo dos nossos jovens.
É premente a criação de um conceito de escola completa, que tenha todas as condições para que haja uma educação global e plena dos nossos jovens. Mas, se as infra-estruturas são fundamentais, o mais importante são a qualidade pedagógica e a qualidade humana, ou seja a relação pedagógica daquilo que nós conseguimos dentro da escola e dentro da sala de aula.
Toma-se, assim, indispensável, por um lado, uma reorganização pedagógica da escola, que valorize a dimensão curricular/lectiva, constituída pelas disciplinas, os seus programas, as suas metodologias e os seus regimes de avaliação, mas também, por outro, uma reorganização estrutural das actividades extracurriculares que a lei de bases chama de complemento curricular. Esta necessidade prende-se com a preocupação e orientação vocacionais dos nossos alunos.
Se a certa altura dermos aos nossos jovens a possibilidade de, não apenas, frequentarem aquilo a que a sociedade os obriga, que são as aulas para aprenderem as diversas disciplinas mas, se lhes permitirmos que haja espaço devidamente organizado para eles se dedicarem a actividades culturais, desportivas e de formação profissional que considerem extraordinariamente importantes para a sua pessoa e para a sua reorganização pessoal, o que corresponde a vocações profundas que eles tenham, nós estaremos a combater a escola “chata”, a introduzir a alegria e a reconciliarmos os jovens com a ela.
Sei, no entanto, que nem sempre é fácil conciliarmos a concretização destes objectivos com os recursos físicos e humanos existentes nas escolas. Em termos de recursos humanos devemos sempre de ter em conta, por um lado, as experiências dos professores, do pessoal não docente e de outros intervenientes e, por outro, a sua disponibilidade em termos de tempo.
Quanto aos docentes desde que os seus horários sejam elaborados tendo em conta as actividades lectivas, mas também a possibilidade de contemplarem actividades extracurriculares, de acordo com as suas experiências, alguns dos obstáculos à prossecução de planos com vista à redução ou eliminação do abandono/insucesso escolar estarão decerto ultrapassados. Tudo deverá ser feito de modo a possibilitar que os nossos jovens se sintam compensados no sistema de ensino.

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